quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Vladmir Herzog e Canudos


 Por Bruno Paulino, escritor.

O bárbaro assassinato do jornalista Vladmir Herzog, no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi (São Paulo), segundo quase consenso dos historiadores é um marco significativo da derrocada da Ditadura Militar Brasileira, instaurada em 1964. A famosa fotografia estampada nos livros de história, da falsa cena montada para simular o suicídio de Vlado, após ser divulgada pelos militares, causou indignação e revolta na sociedade civil, inspirando acontecimentos como o culto ecumênico celebrado em memória do jornalista, na Igreja da Sé. Vlado havia sido detido para prestar depoimento acusado de ser militante comunista e, teria cometido suicídio na própria cela, segundo o Exército.

Sempre fui um curioso pela trajetória de Vladimir Herzorg, por isso li recentemente dois trabalhos sobre o tema: Meu querido Vlado: A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração do jornalista Paulo Markun e As duas guerras de Vlado Herzog, do também jornalista Audálio Dantas. E fiquei surpreso ao descobrir que ele foi a Canudos e que almejava gravar um filme-documentário sobre o tema. Segundo Paulo Markun no referido livro: “Vlado estava no sertão da Bahia em busca de cenários e sobreviventes da Guerra de Canudos, enquanto Marco Antônio Coelho enfrentava os interrogatórios. No açude Cocorobó, conversou com alguns remanescentes da epopeia, entre eles, a beata Lucinda, que aos 102 anos ainda tinha boa memória, como pré-produção de um Globo Repórter”.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Devaneios de uma distopia artística

 

Num futuro não tão distante, chegará o tempo da absoluta criação artística pelas máquinas, e assim será decretada a abolição completa da produção criativa humana. Consolidar-se-á o império artístico dos instrumentos autônomos. 
 
Nesse tempo dominado pela inteligência artificial, ilustrações, pinturas e desenhos serão feitos com perfeição geométrica hipnotizante. Literatura, filmes e séries disporão de gatilhos dopamínicos que não deixarão o sujeito piscar os olhos em frenesi. Músicas conterão ritmos tão bem concatenados por algoritmos, que elas não sairão das mentes dos ouvintes por dias a fio, mais parecendo um encantamento. Tudo isso fará com que qualquer tipo de trabalho artístico originado de um ser humano seja descartado e caia completamente na obsolescência. Nesse futuro próximo, as pessoas serão viciadas em algo que ainda é desconhecido da humanidade, a completa perfeição da produção artística.
 

sábado, 14 de outubro de 2023

Homenagem a Getúlio Câmara


Aos setenta e sete anos bem vividos, Getúlio Câmara, a voz eloquente do rádio do Sertão Central, está morto! Silêncio, Quixeramobim! Chora minha gente da cidade e dos distritos mais remotos, até onde chegavam as ondas da Rádio Difusora Cristal. Ao som da Meditation de Massenet, a voz grave de Getúlio silencia para sempre. As pessoas humildes que o procuravam para transmitir recados para parentes e amigos estão hoje, de certo modo, órfãs.

Getúlio herdou de seu pai Fenelon, não apenas os equipamentos da pioneira Rádio Cristal, sucessora da Difusora A Voz de Cristal. Herdou, sobretudo, o gosto pela profissão de radialista e o talento necessário para desempenhá-la com sucesso.

Nos últimos anos frequentei muitas vezes a Rádio Cristal. Ia direto para o estúdio de onde Getúlio acompanhava a programação e gravava os anúncios. Conversávamos a manhã inteira trocando ideias sobre a conjuntura nacional, mas o tema principal era a recordação de nosso tempo de criança. Ele era um ano mais novo que eu. Vivemos na mesma época. Sem dúvida, Getúlio conhecia a história de Quixeramobim como poucos. Melhor que eu que passei parte da minha infância e adolescência fora da minha terra. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Prefácio(?)


Não é um prefácio o que ora escrevo sobre essas páginas de Sandra Fontenelle, mas o registro de minhas breves impressões como leitor. Acho que escrever haikai é um desafio poético difícil, que exige habilidade do escriba, poder de síntese e a astúcia da observação, aliada com imensa paciência. É quase uma tarefa de eremita.

A poeta é uma menina-adulta, carregando no peito uma ruma de lembranças que certamente a acompanharão para sempre. Pergunto-me quanto tempo meditou para escrever cada haikai.

Sandra Fontenelle é uma vate inspirada e reinventa o sertão nos seus versos. Duas frases imediatamente me vêm à cabeça ao finalizar a leitura do livro: “O sertão está em toda parte”, como diria Guimarães Rosa, e “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, na força do verbo de Euclides da Cunha.  É o sertão e o sertanejo que emergem do livro. Porém não há fronteiras para a poesia. Ela toca o homem de diversas formas.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

ESTANTE - A Literatura e a Fome


Na estante da professora e historiadora Cláudia Oliveira, presidente da Aquiletras, está o clássico 
"Quarto de Despejo, diário de uma favelada", de Carolina Maria de Jesus. Na obra, escrita entre os anos de 1955 até 1960, a catadora de papel e moradora da favela do Canindé, no Rio de Janeiro, relata nas páginas de seu diário o dia a dia da sua vida na favela. 

Confira mais na resenha de Cláudia Oliveira:

"Ao escrever o diário 'Quarto de Despejo, diário de uma favelada' - gênero de texto, em princípio pessoal e intransferível - Carolina Maria de Jesus ultrapassou os limites individuais e deu voz à coletividade miserável e anônima que habita os barracos e os vãos das pontes nas grandes cidades. A partir da narração de seu cotidiano, acabou por traçar um painel variado da vida dos favelados e de sua luta pela sobrevivência. Mais do que isso, com sua linguagem simples e objetiva, a que os erros gramaticais apenas conferem maior realismo, atingiu momentos de grande lirismo e força expressiva, inscrevendo-se, sem sombra de dúvida, na literatura brasileira."

sábado, 23 de setembro de 2023

Carta à Raquel de Queiroz


Domingo, 20 de junho de 1993, dezenove horas 

Estou voltando, sozinho, da tua Fazenda Não Me Deixes, para onde fui te levar. Cumpriste hoje intensa programação. Recebeste a chave da cidade. Depois o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Ceará na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central. 

As lembranças me remetem à infância. No Colégio Salesiano fui proibido de ler O Quinze. Estava no índex: eras comunista. 

Conheci-te através da Revista O CRUZEIRO, na companhia de Gustavo Barroso, Austregésilo de Athayde, Carlos Estevão, Péricles, David Nasser e tantos outros. A minha leitura da revista começava sempre pela última página. Guardo na memória o artigo A COLA ELETRÔNICA.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Elza Coutinho: dama do direito e da educação

 

Licenciada em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e graduada em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Elza Pereira Bezerra Coutinho dedicou sua vida a duas carreiras: o direito e a educação. Cursou especializações em administração escolar e supervisão escolar pela UECE, além de inúmeras outras formações dentro da área da educação.

Seu empenho e aprimoramento intelectual constantes abriram caminhos para que Elza atuasse como professora, com passagem pelas escolas Normal Dom Quintino, Assis Bezerra e Colégio Estadual, em Quixeramobim, além da escola Antônio de Almeida Lustosa, na capital cearense. Também atuou como diretora escolar nas instituições de ensino Humberto Bezerra e Colégio Estadual Dr. Andrade Furtado, em Quixeramobim. Em 1983, contribuiu decisivamente na elaboração do Plano Municipal de Educação e do Plano Municipal de Ação Social, junto à Prefeitura de Quixeramobim. Já no ano de 2000, recebe Placa em Homenagem como Professora Fundadora do Colégio Estadual Dr. Andrade Furtado, durante evento alusivo aos 40 anos da instituição.