quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Devaneios de uma distopia artística

 

Num futuro não tão distante, chegará o tempo da absoluta criação artística pelas máquinas, e assim será decretada a abolição completa da produção criativa humana. Consolidar-se-á o império artístico dos instrumentos autônomos. 
 
Nesse tempo dominado pela inteligência artificial, ilustrações, pinturas e desenhos serão feitos com perfeição geométrica hipnotizante. Literatura, filmes e séries disporão de gatilhos dopamínicos que não deixarão o sujeito piscar os olhos em frenesi. Músicas conterão ritmos tão bem concatenados por algoritmos, que elas não sairão das mentes dos ouvintes por dias a fio, mais parecendo um encantamento. Tudo isso fará com que qualquer tipo de trabalho artístico originado de um ser humano seja descartado e caia completamente na obsolescência. Nesse futuro próximo, as pessoas serão viciadas em algo que ainda é desconhecido da humanidade, a completa perfeição da produção artística.
 
O encontro com a perfeição será um acontecimento disruptivo. Por toda a história da humanidade, o que se conhece é apenas a busca contínua pela excelência em cada ofício. O infinito aprimoramento da obra. É essa busca o que move o artista, que sempre tenta, mas não a alcança, pois ele é humano. Michelangelo certa vez até acreditou que atingira a perfeição, quando olhou para seu Moisés de mármore, e, batendo-lhe com um martelo após tê-lo finalizado, gritou encantado: “por que não falas?”.
 
Nesse futuro próximo a arte dos homens definhará até o total esquecimento. As pessoas, inebriadas pelo impecável, recusarão apreciar um quadro feito por um semelhante, com todas as suas idiossincrasias, e preferirão contemplar a arte singular produzida pela inteligência plena. E é assim que ela será chamada, porque nesse futuro que se avizinha não se usará mais o termo “inteligência artificial”. Como chamar de artificial algo que não tem defeitos? Será pois denominada de plena.
 
Nessa nova era os seres humanos serão consumidores passivos da produção artística tecnológica. Não existirá mais nada feito por qualquer gente, tudo será feito pelas máquinas. No círculo viciante desse novo modo de consumir, tudo será tão impecavelmente elaborado, que nada que não tenha a perfeição vingará. O trabalho humano defeituoso restará relegado ao esquecimento, tido apenas como um exemplo do que um dia foi a arte, apenas uma etapa da evolução. Um capítulo nos livros de história.
 
Mas no submundo do período da inteligência plena, ainda existirá um grupo de humanos resistentes. Escondidos, negar-se-ão a consumir material de máquina, e garimparão nas ruínas de galerias e museus, no grande lixo da história humana, aquilo que já foi considerado excelente e passou a ser dito imperfeito e desprezado. Encontrarão afinal o que já foi arte. A nossa arte. Serão os consumidores do defeito, os viciados na humanidade.
 
Eduardo Coutinho

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