sábado, 14 de outubro de 2023

Homenagem a Getúlio Câmara


Aos setenta e sete anos bem vividos, Getúlio Câmara, a voz eloquente do rádio do Sertão Central, está morto! Silêncio, Quixeramobim! Chora minha gente da cidade e dos distritos mais remotos, até onde chegavam as ondas da Rádio Difusora Cristal. Ao som da Meditation de Massenet, a voz grave de Getúlio silencia para sempre. As pessoas humildes que o procuravam para transmitir recados para parentes e amigos estão hoje, de certo modo, órfãs.

Getúlio herdou de seu pai Fenelon, não apenas os equipamentos da pioneira Rádio Cristal, sucessora da Difusora A Voz de Cristal. Herdou, sobretudo, o gosto pela profissão de radialista e o talento necessário para desempenhá-la com sucesso.

Nos últimos anos frequentei muitas vezes a Rádio Cristal. Ia direto para o estúdio de onde Getúlio acompanhava a programação e gravava os anúncios. Conversávamos a manhã inteira trocando ideias sobre a conjuntura nacional, mas o tema principal era a recordação de nosso tempo de criança. Ele era um ano mais novo que eu. Vivemos na mesma época. Sem dúvida, Getúlio conhecia a história de Quixeramobim como poucos. Melhor que eu que passei parte da minha infância e adolescência fora da minha terra. 

Era um grande memorialista. Aprendi muito com ele. De passagem falávamos de política, como observadores críticos, mas eu nunca indaguei sobre as suas preferências partidárias ou suas convicções ideológicas.

Getúlio foi um político exemplar. Presidente da Câmara Municipal de Quixeramobim no biênio 1997–1998, teve uma gestão caracterizada pela austeridade no uso dos recursos públicos.

Nosso foco era a recordação dos bons tempos da infância, sobretudo nas décadas de 1950 e 1960. Nossas conversas sempre eram concluídas com a lembrança das músicas antigas. Getúlio me presenteou com as gravações de mais de 200 músicas da época, todas com seus intérpretes originais. Presenteou-me também com mais de quatrocentas fotos antigas em preto e branco de personalidades antigas de Quixeramobim. Rapidamente o tempo passava, o papo era encerrado e eu voltava em outra oportunidade para dar continuidade a nossa prazerosa conversa.  

Nosso último encontro foi em janeiro de 2020. A pandemia nos afastou, mas eu telefonava para ele com alguma frequência.

Há cerca de três meses perdi o meu irmão Dim. Compareci ao velório. Liguei várias vezes para o Getúlio e ele não me retornou.

Ontem fui surpreendido com a aterradora notícia de seu passamento.

Registro aqui todo o meu pesar e manifesto o meu solidário abraço às suas irmãs Glaucia e Violetinha, as suas filhas e demais familiares.

Chora, Quixeramobim! Chora!

Que a terra calcinada pelo sol inclemente seja irrigada com seu pranto na esperança de que a memória de Getúlio será perpetuada e que a Rádio Difusora Cristal sobreviva e prossega na sua extraordinária missão de prestar relevantes serviços ao povo generoso de nossa terra. E esta será sua melhor homenagem.

Missão cumprida, querido amigo Getúlio. Descansa em paz!

Gilberto Telmo Sidney Marques
Escrito em 09 de outubro de 2022

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