sábado, 23 de setembro de 2023

Carta à Raquel de Queiroz


Domingo, 20 de junho de 1993, dezenove horas 

Estou voltando, sozinho, da tua Fazenda Não Me Deixes, para onde fui te levar. Cumpriste hoje intensa programação. Recebeste a chave da cidade. Depois o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Ceará na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central. 

As lembranças me remetem à infância. No Colégio Salesiano fui proibido de ler O Quinze. Estava no índex: eras comunista. 

Conheci-te através da Revista O CRUZEIRO, na companhia de Gustavo Barroso, Austregésilo de Athayde, Carlos Estevão, Péricles, David Nasser e tantos outros. A minha leitura da revista começava sempre pela última página. Guardo na memória o artigo A COLA ELETRÔNICA.

Alunos do curso de engenharia de Ouro Preto montaram uma emissora clandestina de ondas médias. A partir de então, os lares da cidade e o éter de Minas foram invadidos por informações as mais diversas de interesse localizado. Era a RÁDIO CABACINHA, a serviço da fraude, utilizada para transmitir a “cola” ou a “pesca” durante as provas da Faculdade. Lamentava a professora Rachel não fossem o talento, a inteligência e o tempo empregados a serviço de uma causa nobre. 

Encontrei-te já em 1987. Tempos difíceis. Os cursos superiores de Quixadá, Itapipoca e Crateús estavam cassados pelo Conselho Federal de Educação. Vivíamos o pesadelo atroz da ameaça real de fechamento das Faculdades do Interior, do eclipse total. Procurei-te angustiado em Não Me Deixes, a nossa Pasárgada. 

Comprastes a nossa briga junto aos teus amigos do Conselho Federal de Educação. As dúvidas foram dissipadas. A ação solerte dos inimigos da Faculdade foi anulada. A batalha foi vencida. As Faculdades foram salvas. O projeto educacional do Sertão Central também. 

Ao te encontrar hoje pela manhã, comovido como das outras vezes, escutei de ti: “estava com saudade”. Há pouco tempo eu te trazia para o teu refúgio. Conversamos ao crepúsculo. Palavras sobre a seca. Pedias a minha opinião sobre a venda de teu gado. Como se um humilde professor, nunca possuidor de um simples borrego, pudesse opinar sobre o assunto. 

Estou escrevendo para te aperrear outra vez. Li no jornal o teu apelo ao presidente da República. Insiste! A seca de 1993 é crudelíssima. Nunca vimos coisa igual. Os rebanhos estão deixando o nosso Sertão. Os açudes estão secos. O povo padece de fome e sede. Nunca o quadro foi tão cruel. Insiste Rachel! O teu povo está sofrendo além da conta... 

Na minha tristeza da despedida me dissestes: “Pede a Deus para fazer chover. Eu volto logo”. 

Vou pedir. Estou com saudade. Um beijo. 

(Publicada no Jornal O POVO em outubro de 1993)

Gilberto Telmo Sidney Marques

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