sábado, 24 de junho de 2023

Amazônia: história e curiosidades


Afastando-me temporariamente dos assuntos de nossa terra, peço vênia aos leitores para imiscuir-me em tema que há mais de meio século despertou minha curiosidade – A Amazônia.

Esse despertar surgiu quando a recém-inaugurada TV Ceará, lá pela década de 1960, exibiu uma reportagem sobre a malsoante e fatídica estrada de ferro Madeira - Mamoré, à época ainda funcionando precariamente em alguns de seus trechos.

Muitos anos depois, em visita a Rio Branco (AC), deparei-me ali com acentuada parte da população de origem nordestina, a maioria descendente de cearenses que para lá se foram na época da borracha, e que me orientou a visitar uma livraria da cidade, onde adquiri algumas obras bem interessantes.

Como é do conhecimento de grande parte dos brasileiros, essa obra (Madeira-Mamoré), a conhecida “Ferrovia do Diabo”, um projeto desastroso que consumiu uma quantia de dinheiro equivalente a, aproximadamente, 28 toneladas de ouro e centenas de vidas humanas, teve sua construção projetada no ano de 1867 e iniciada em 1907, sendo concluída em 1912, vindo a encerrar suas atividades em 1931, em razão do malogro financeiro do empreendimento. Dias depois, no entanto, voltou a funcionar e, depois de várias paralisações e revitalizações encerrou definitivamente suas atividades em 1972.

A intenção dos idealizadores do projeto – Bolívia e Brasil -, era ligar a primeira ao Oceano Atlântico, através da Amazônia. O vultoso custo da obra, além de sugar verbas desses dois países, levou à bancarrota empresas e empresários ingleses e norte-americanos, inviabilizando a continuidade de seu uso.

Mas, descrever a história dessa ferrovia e dos famosos “soldados da borracha”, ocuparia o espaço de um ou mais livros, o que me leva a encerrar essa abordagem por aqui, sem prejuízo de voltar a abordá-la futuramente.

Para quem, no entanto, nutre o interesse em conhecer a história do país, a “Madeira-Mamoré” não deve ser colocada à margem de sua leitura, posta à disposição dos interessados em diversas obras, dentre elas a mais completa – A Ferrovia do Diabo, de autoria de Manoel Rodrigues Ferreira (ed. Melhoramentos, 2008), considerada a mais completa de todas.

Portanto, hoje resumo meu trabalho a uma ocorrência amazônica curiosa que veio ao meu conhecimento há alguns anos, através de um presente que me foi ofertado pelo então presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia, um mombacense que, em visitação à sua terra natal, nos concedeu uma obra publicada pelo Instituto Dr. Ary Pinheiro – IPARY.

Esse instituto, com sede em Porto Velho (RO), entidade de preservação ambiental criado para homenagear esse famoso esculápio paraense que fez história na Amazônia, implantando e dirigindo várias obras públicas, inclusive, de assistência médica aos operários da ferrovia mencionada.

A história que é narrada nesse livro, e que pretendo ora expor é a seguinte:

Na época fausta da borracha, abastados comerciantes e donos de seringais amazonenses mandavam seus filhos estudar na Europa. Em 1901 chegava ao Pará a ornitóloga alemã de fama internacional, Emília Snethlage, com a finalidade de organizar um catálogo sobre aves da Amazônia. Infiltrando-se pela floresta, em busca de matéria para seu trabalho, com especial curiosidade sobre a possível existência do pássaro que vinha empolgando o mundo científico, o uirapuru, a estudiosa deu início a uma verdadeira saga que perduraria por quase três décadas

Em passagem pela região do rio Tocantins, lembrou-se de uma colega brasileira que conhecera em colégio de Londres, de quem se tornara amiga e que lhe informara, ao concluir seus estudos, que retornaria ao Brasil, exatamente para a Amazônia, onde ainda residiam seus pais, ele próspero castanheiro.

Chegando ao lugar Cametá veio a saber que Diana (este era seu nome)  tinha residido por algum tempo no lugarejo, atualmente um grande município do Estado do Pará, onde contraiu matrimônio com um rico castanheiro e com ele constituíra família, porém, certa feita, atravessando uma das cachoeiras do lugar, teve os seus familiares assassinados por índios da tribo dos gaviões , sobrevivendo sozinha ao ataque, isto para que servisse como companheira de um índio da tribo que por ela se apaixonara.

A alemã ficou bastante chocada com a infausta notícia, mas não interrompeu sua corajosa incursão pela selva, onde veio a perder-se e, durante meses após, as expedições criadas pelo governo para localizá-la desistiram da tarefa, dando-a como morta.

Snethlage, no entanto, sobreviveu para passar por outra surpresa. Sentindo-se vencida nas suas caminhadas, faminta e atacada por levas de mosquitos, resolveu esperar a morte à sombra de uma frondosa sapopema, acendeu uma fogueira para espantar os insetos e dali ouviu o cantar de um galo denunciando a existência de habitações nas redondezas.

Caminhando em direção ao local deparou-se com uma maloca bem cuidada de onde saiu uma mulher loira, vestida, apenas, com uma tanga, logo reconhecida pela visitante como sendo sua ex-colega colega Diana, que tanto procurara quando chegou ao Brasil.

Diana, também, de imediato, a reconheceu, contando-lhe sua desventura e, evidentemente, sua vida na selva, afirmando que, a princípio, odiara seu sequestrador, porém, com o transcorrer dos dias e a impossibilidade de modificar a situação, passou a aceita-lo como amante e dessa relação tivera cinco filhos, abandonando completamente a ideia de retornar as suas origens.

Vários índios da tribo do companheiro de Diana se acercaram da alemã, tentando cooptá-la para um casamento, mas ela resistiu e terminou por conseguir liberar-se do assédio para prosseguir com seus estudos. Após permanecer por muito tempo nas matas dos rios Tocantins, Xingu e Tapajós, percorrendo a pé e em canoas improvisadas, em torno de 380 quilômetros, na companhia do pernambucano Manoel Cavalcante Umbuzeiro que contratara como guia, coletou farto material para sua obra.

Carismática, paciente e de invejável resistência física, Snethlage, além de concluir seu trabalho de ornitóloga, envolveu-se com o estudo dos costumes e das línguas indígenas para, anos depois, utilizando a navegação do Rio Madeira, chegar a Porto Velho (RO), onde faleceu no ano de 1929, em um dos apartamentos do Hotel Brasil, vítima de um colapso.

O resultado de seu trabalho na Floresta foi condensado em catálogo que ainda hoje é exibido, junto com outras obras de sua autoria, nos mais afamados museus da Europa.

Apesar de sua luta, de sua capacidade e do empenho que deu à tarefa que abraçara, Snethlage, antes de morrer sentia-se frustrada por não haver conseguido encontrar o pássaro que tanto procurara e que na época empolgava os meios científicos – o uirapuru.

Ao falecer, contava a alemã com 29 anos de permanência no Brasil.

Raimundo Araújo 
Advogado

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