sexta-feira, 9 de junho de 2023

Café com prosa: Gabrielly Frutuoso conversa com o escritor Bruno Paulino


Para o Café com Prosa desta semana, convidei o escritor quixeramobiense Bruno Paulino, porque sei bem que o menino-poeta aprecia uma boa conversa de alpendre. Você, leitor, se achegue mais, prepare também sua xícara de café, afinal, um cafezinho forte e quente é o melhor acompanhamento para uma boa prosa.

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Gabrielly – Quem é o Bruno Paulino, para além do Bruno-professor e do Bruno-escritor?

Bruno – Sou, e não escondo essa vaidade, um grande leitor. Ando sempre com três ou quatro livros para cima e para baixo. A coluna - em tempos de Kindle e livros digitais - é quem costuma reclamar do peso de ainda carregar velhos livros impressos na mochila. Leio na fila do banco, dentro do ônibus, na praia, no bar, na igreja, no hospital. Na verdade, o Bruno-professor e o Bruno-escritor, só atrapalham o Bruno-leitor, que talvez seja o único Bruno que realmente gostaria existir.

Gabrielly – Você já afirmou em outras entrevistas ser essencialmente um jovem provinciano. A província está nitidamente presente na sua escrita, quando você menciona a casa dos avós do outro lado do rio, os pássaros, o sertão, as conversas de boteco. Esses são hábitos e cenários muito característicos da província, do interior. Mas, quais outros temas são objeto da sua curiosidade? Que outras histórias povoam o imaginário do Bruno-escritor e que ainda não foram exploradas por você?

Bruno – Sou um curioso por tudo: desde o sexo dos anjos aos gatos da Mesopotâmia, o suicídio de Getúlio Vargas, os heterônimos de Fernando Pessoa e as polêmicas profecias de São Malaquias tudo é matéria de minha curiosidade. Se me interesso por um assunto quero ler o máximo disponível a respeito dele. Uma semana dessas li três livros de ufologia, sem acreditar em patavina do assunto. Só por exercício de curiosidade. Não tenho preconceito com assunto nenhum, pois com “engenho e arte”, para citar o poeta Camões, tudo pode e deve virar literatura: o rebolado da morena que passa, o céu estrelado da noite ou a violência social que nos assola todo dia. E sim, sou confessadamente provinciano, tenho a alma meio antiga. Gosto de fazer pequenos percursos a pé e contemplar paisagens corriqueiras.

Gabrielly – Você lê todos os dias? Preserva algum ritual de leitura? 

Bruno – Leio religiosamente todos os dias. Gosto de ler na rede. O folclorista Câmara Cascudo disse que o Freud recomendava o sofá como divã para a prática da terapia porque, infelizmente, ele não havia conhecido a rede sertaneja. Meu ritual de leitura é deitar-se numa boa rede e desligar o celular, um luxo nesses tempos. Mas como nem sempre isso é possível, eu dou um jeito de ler todo dia, nem que seja de cabeça para baixo pendurado numa corda pelos pés e torturado por espinhos (que exagero!). 

Gabrielly – E rituais de escrita? 

Bruno – O Câmara Cascudo (vou ter que novamente citá-lo) tinha uma placa no seu escritório com o aviso “não atendemos pela manhã”, e o compreendo nesse ponto integralmente. É muito bom acordar cedo, mas para regar as plantas, tomar café com calma e escrever coisas que exigem silêncio. Por isso costumo escrever de madrugada no notebook, na minha biblioteca, posto em sossego, um silêncio maravilhoso. É claro que também escrevo durante o dia. Acho que coca-cola e café ajudam muito na hora da escrita (brincadeira). Às vezes, faço poesia no caderninho (acho romântico) ou rabisco um ou dois versos no bloco de notas do celular para que a ideia não se perca, e retomo depois com calma. Reescrever e cortar excessos do texto é muito mais importante que escrever, já recomendava o mestre Graciliano Ramos, lembrando as lavadeiras dos rios de alagoas e seu gesto reticente de torcer as roupas a quarar no sol. Mas sou tribuno do hábito de sentar-se para escrever quando a inspiração vem e quando ele não vem também. Concordo com o Zuenir Ventura que disse sabiamente gostar de ter escrito, mas não de escrever. Escrever é uma chatice.

Gabrielly – Ouvi você dizer em algum lugar que gosta de ouvir música antiga e que esse hábito lhe acalma. Você costuma usar outras expressões artísticas como forma de inspiração? Da música, por exemplo, costuma trazer referências?

Bruno – Sou apaixonado por música antiga. Meu pai falava num tom bastante saudosista que cantor era o Nelson Gonçalves, e eu acabei gostando de ouvir música dessa época. Aliás, nem sei se música tem esse negócio de época, acho que toda música é atemporal. João Gilberto, por exemplo, a geração mais nova nem conhece, e por isso não tem como gostar, mas eu realmente me acalmo ouvindo João Gilberto e acho o som dele a coisa mais sofisticada, moderna e refinada do mundo. Toda arte é um grande diálogo com a vida e com as outras artes. E certamente o fato de ouvir bastante música colabora de alguma forma com a minha escrita.

Gabrielly – Quando você não se identifica com alguma leitura, abandona aquele livro ou persiste nele? Costuma dar chance a livros que não lhe capturam num primeiro momento?

Bruno – Sou um leitor caótico e anárquico: leio cordel, biografia, romance, reportagem tudo na mesma hora. Três livros de uma vez. Nunca insisto numa leitura quando o tesão no livro já passou. Eu apenas o devolvo para a estante e depois, com o tempo, às vezes, volto a lê-lo de novo. Não tenho nenhum tipo de preconceito quando se trata de ler, mas tenho minhas preferências. E só leio enquanto estou empolgado com o livro. Na vida a gente já faz muita coisa porque é obrigado (trabalha, declara imposto de renda, vota, sorri, se comporta…); aí o hábito da leitura eu costumo praticar como exercício de liberdade.

Gabrielly – Como saber que uma obra literária está pronta para ganhar o mundo, digo, para ser publicada? Há escritores que trabalham em livros por muitos anos e não se dão por satisfeitos. Você é preciosista?

Bruno – Eu nunca sei quando uma obra está pronta, ela simplesmente ganha o mundo. E geralmente constato depois, que ela realmente ganhou o mundo sem estar pronta. Não sou preciosista. Por ser relativamente jovem ainda, considero que já publiquei muito – o que talvez tenha sido um grande erro. É sempre bom ter paciência com um livro. Aliás, é sempre recomendável ter paciência em matéria de escrita. Felizmente aprendi que muito do que escrevo deve acabar na lixeira, para o imenso alívio de quem arrisca me ler.

Gabrielly – Esses dias ouvi uma entrevista do nosso conterrâneo Fausto Nilo, onde ele conta que teve musas inspiradoras, mas que, no final, sempre ia com a poesia, ou seja, se a poesia lhe oferecesse uma estética mais interessante, ele trairia a musa. E você, vai com estética ou com a musa? 

Bruno – Eu vou com a musa e com a poesia. Explico com uma imagem poética: contemplar o mar é bonito, mas a mulher nadando nua no mar, convenhamos que é muito mais bonito. Brincadeiras à parte, acredito que todo poeta é, antes de tudo, um apaixonado pela poesia, um obcecado pelo “prazer estético”, o que não quer dizer rigidez na forma, nem tampouco aprisionamento à “musa”. Eu elejo umas três musas por semana, e passo meses sem escrever algo digno de ser chamado de poesia. No fim, a regra é clara: vale a boa poesia, que infelizmente a gente raramente consegue fazer.

Gabrielly – Não gostaria que essa pergunta soasse reducionista e sei que algumas impressões e referências as vezes passam, enquanto outras se apresentam, mas gostaria de saber se há alguma obra ou escritor pelos quais você tenha especial apreço. Para facilitar sua resposta, qual livro de outro autor que você gostaria de ter escrito?

Bruno – O livro Os Sertões, do Euclides da Cunha, de quem sou ávido leitor “por admiração e protesto”.  Considero genial a forma que ele harmonizava no texto ciência e literatura. As frases de impacto. O ritmo, as antíteses. O tom agressivo e o narrador sincero. O Euclides da Cunha dizia que o escritor do futuro seria um polígrafo, alguém que dominaria muitos assuntos. Acho que não domino assunto nenhum. Escrevo por pura ignorância das coisas. Se conseguir escrever uma boa crônica ou poema sem aborrecer o leitor, e caso esse texto ainda o toque, o sensibilize, “bula” com ele, acho que cumpri bem o meu intento.

Gabrielly – Nos últimos meses, temos acompanhado uma série de notícias dando conta do fechamento de grandes redes de livrarias. Os rankings mundiais de leitura também colocam o Brasil em posições bem desfavoráveis. No entanto, a internet democratizou a leitura, facilitou o acesso. Como você avalia o mercado editorial hoje no Brasil e as preferências de leitura dos brasileiros? 

Bruno – O brasileiro infelizmente prefere não ler. Gosto da produção literária independente, das pequenas editoras, geralmente muito boas, que não devem nada do ponto de vista literário e do serviço gráfico do livro a nenhuma gigante do mercado editorial. A internet encurtou realmente distâncias, e o contato do leitor muitas vezes se dá direto com o escritor, via rede social. O leitor quando “posta” o livro que está lendo na grande rede se torna automaticamente garoto-propaganda do livro. Gosto dessa interação. É democrático ver seu livro esculachado ou louvado na internet. É democrático, mas convenhamos, não é a glória eterna, rs. Eu não entendo muito do mercado editorial, porém cuido dos meus livros como minha mãe cuida das plantas dela no jardim. Não sei fazer literatura e livro de outro jeito.

Gabrielly – Quais novidades podemos adiantar aos leitores desta página sobre seus projetos futuros?

Bruno – Um novo livro de poemas e uma nova safra de cordéis.

Gabrielly – Agora vamos fazer uma brincadeira. Te ofereço palavras-chave e você responde como desejar.

Gabrielly – Uma música:

Bruno – Naquela Mesa, do Nelson Gonçalves. A música mais bonita já cantada sobre saudade.

Gabrielly – Livro de cabeceira:

Bruno – O livro História de uma alma, de Santa Teresinha do Menino Jesus. A leitura desse livro me ensina a enxergar a transcendência nas pequenas coisas, no fazer cotidiano, na pequena via. São “simples” e ao mesmo tempo teologicamente “avançadas” as ideias de que “nada é pequeno se feito com amor” e que “pensar em uma pessoa que se ama é rezar por ela”.

Gabrielly – Deus:

Bruno – Deus é um passarinho. Contemplo e não consigo explicar. E qualquer explicação estragaria a metáfora.

Gabrielly – Quixeramobim:

Bruno – É como acidadezinha qualquer”, descrita no poema do Carlos Drummond de Andrade, só que mais “besta” e “poética”.

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